{"id":202,"date":"2007-05-15T11:50:50","date_gmt":"2007-05-15T11:50:50","guid":{"rendered":"http:\/\/stage2.comparatistas.umadesign.com\/en\/2007\/05\/15\/mario-jorge-torres\/"},"modified":"2007-05-15T11:50:50","modified_gmt":"2007-05-15T11:50:50","slug":"mario-jorge-torres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cec.letras.ulisboa.pt\/en\/excertos\/excertos-excertos\/mario-jorge-torres\/","title":{"rendered":"N\u00e3o vi o livro, mas li o filme"},"content":{"rendered":"<p><P><STRONG><SPAN class=titulo>Algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a rela\u00e7\u00e3o entre cinema e literatura<BR class=\"\"><\/SPAN>M\u00e1rio Jorge Torres<\/STRONG>  <HR id=null>  <P>Onde queremos chegar com mais estas incurs\u00f5es pelo cinema do passado, instrumentalizado para falar das formas do presente? \u00c0 evid\u00eancia de que, mesmo quando o cinema se socorria da discursividade liter\u00e1ria (A Morte Cansada ou Vertigo adaptam textos liter\u00e1rios de valor desigual), sempre se constru\u00edram nos objectos f\u00edlmicos pontos de interesse de uma outra ordem, que punham j\u00e1 em quest\u00e3o o primado da adaptabilidade como hip\u00f3tese.<\/P> <P>Por isso, Monique Carcaud Macaire e Jeanne-Marie Clerc, num artigo reunido nas Actas do Col\u00f3quio realizado em C\u00e9risy, em 1998, &#8220;Pour une Approche Socio-critique de l&#8217;Adaptation Cin\u00e9matographique: l&#8217;Exemple de Mort \u00e0 Venise&#8221; [Monique Carcaud-Macaire et Jeanne-Marie Clerc, &#8220;Pour une Approche Sociocritique de l&#8217;Adaptation Cin\u00e9matographique: l&#8217;Exemple de Mort \u00e0 Venise,&#8221; Andr\u00e9 Gaudreault et Thierry Groenstein (eds.), La Trans\u00e9criture. Pour une Th\u00e9orie de l&#8217; Adaptation (Qu\u00e9bec: \u00c9ditions Nota Bene, 1998), pp. 151-176], recusam, liminarmente, os conceitos conjugais de fidelidade ou trai\u00e7\u00e3o, sublinhando de forma perempt\u00f3ria que n\u00e3o existem equival\u00eancias semi\u00f3ticas entre romance e filme.<\/P> <P>A cria\u00e7\u00e3o f\u00edlmica deve, portanto, mobilizar no espectador uma compet\u00eancia de leitura, um saber cultural, que lhe s\u00e3o pr\u00f3prios. Por outro lado, toda a adapta\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e uma leitura pr\u00e9via, sendo uma redistribui\u00e7\u00e3o mediatizada pela escrita cinematogr\u00e1fica desse processo de leitura. O exemplo do trabalho de Visconti sobre Mann \u00e9 de facto produtivo. Come\u00e7a, desde logo, pela aus\u00eancia do artigo no t\u00edtulo: do original alem\u00e3o de Thomas Mann, Der Tod in Venedig, passamos a Morte a Venezia (ou Death in Venice), abstractizando e universalizando. Depois, o cineasta esvazia a novela de Mann de elementos realistas essenciais, como data\u00e7\u00e3o e localiza\u00e7\u00e3o precisas, e vai at\u00e9 \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do protagonista da novela no compositor do filme, interpretando uma poss\u00edvel alus\u00e3o f\u00edsica e informa\u00e7\u00f5es de que o escritor se teria livremente inspirado em Gustav Mahler, para construir Von Aschenbach.<\/P> <P>O filme vai para al\u00e9m, e para tr\u00e1s, da novela, a fim de desencadear a sua pr\u00f3pria estrat\u00e9gia, fazendo da m\u00fasica de Mahler um elemento fulcral da fic\u00e7\u00e3o. Ler Morte a Venezia (1971) implica, pois, ler o uso do adagietto da Quinta Sinfonia de Mahler na economia narrativa do filme. Adorno, citado pelas autoras do artigo, via no adagietto e na sua extrema lentid\u00e3o um pendor hesitante, que suspendia o correr do tempo. Trata-se de um elemento indissoci\u00e1vel do filme, que j\u00e1 nada tem a ver com Thomas Mann e com a sua cosmovis\u00e3o burguesa. Se Visconti aceita a ideia de Mediterr\u00e2neo de Mann, instaura uma s\u00e9rie de conceitos abstractos, que lhe v\u00eam do uso da m\u00fasica (como j\u00e1 acontecera com a instrumentaliza\u00e7\u00e3o de Bruckner em Senso), edificando o filme \u00e0 base de leit-motive pr\u00f3prios. Por outro lado, Visconti acrescenta \u00e0 novela Der Tod in Venedig, o conhecimento de um texto muito mais tardio de Mann, Doktor Faustus, fazendo-o funcionar como intertexto e modificador: &#8220;L&#8217;inter\u00eat du film de Visconti vient donc du fait qu&#8217;il constitue une relecture de Mann jeune \u00e0 la lumi\u00e8re de Mann vieillissant, pass\u00e9e au filtre d&#8217;un regard cin\u00e9matographique dont l&#8217;\u00e9volution semble inverse de celle de l&#8217;\u00e9crivain&#8221; [Ibidem, p. 174].<\/P> <P>[&#8230;] Por via desta autonomia detectada e inserida no conceito global de transescrita, que unifica o referido col\u00f3quio &#8220;La trans\u00e9criture pour une th\u00e9orie de l&#8217;adaptation&#8221;, dever\u00edamos talvez relativizar o uso, por vezes abusivo que fazemos da no\u00e7\u00e3o de intertextualidade, a qual pressup\u00f5e ainda um maior grau de parentesco entre objectos que caminham para a separa\u00e7\u00e3o, mesmo quando insistem numa converg\u00eancia inicial ou medial.<\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a rela\u00e7\u00e3o entre cinema e literaturaM\u00e1rio Jorge Torres Onde queremos chegar com mais estas incurs\u00f5es pelo cinema do passado, instrumentalizado para falar das formas do presente? \u00c0 evid\u00eancia de que, mesmo quando o cinema se socorria da discursividade liter\u00e1ria (A Morte Cansada ou Vertigo adaptam textos liter\u00e1rios de valor desigual), sempre se &hellip; <a href=\"https:\/\/cec.letras.ulisboa.pt\/en\/excertos\/excertos-excertos\/mario-jorge-torres\/\">Continued<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[35],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cec.letras.ulisboa.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cec.letras.ulisboa.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cec.letras.ulisboa.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cec.letras.ulisboa.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cec.letras.ulisboa.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=202"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cec.letras.ulisboa.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cec.letras.ulisboa.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cec.letras.ulisboa.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cec.letras.ulisboa.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}