FEMINISMOS E DISSIDÊNCIA SEXUAL E DE GÉNERO NO SUL GLOBAL

FEMINISMS AND SEXUAL AND GENDER DISSIDENCE IN THE GLOBAL SOUTH Coordenação: Doris Wieser

Descrição

As teorias pós-coloniais e as conceptualizações do Sul Global como área metafórica da injustiça sistémica muitas vezes abordam questões relacionadas com género, orientação sexual e identidade de género de maneira marginal. Geralmente, a visão hétero-patriarcal é o padrão implícito de abordagens radicais a outros níveis. Por outro lado, não é raro verificar que instituições de cooperação internacional tentam impor ao Sul Global as conquistas legais alcançadas pelos movimentos feministas e da dissidência sexual e de género, passando por cima do facto de que muitas comunidades indígenas (pré-coloniais) tanto na América Latina como na África não estavam organizadas de forma hétero-cis-patriarcal. A grande variedade de outras formas de organização social coloca uma série de questões à tradução cultural no encontro com o Outro e evidenciam as fortes conexões entre colonialismo e patriarcado.

A nível académico, os estudos de género e os estudos queer não são também alheios a uma universalização das questões que os ocupam, partindo de perspetivas ocidentais ou de conceções lineares da temporalidade. Neste contexto, os feminismos produzidos a partir do Sul Global tornam-se imprescindíveis, tanto a nível académico como de mobilização social, ao reclamar a emergência e centralidade do sujeito mulher, dos corpos racializados, da dissidência sexual e/ou de género, bem como da interseção destas com outras categorias marginais. A literatura, o cinema, as artes performativas, entre outras expressões artísticas, produzidas a partir do Sul, têm-se tornado um espaço de negociação dessas reivindicações.

Objectivos

O objetivo geral deste projeto é analisar produções literárias, assim como outras formas artísticas, da África (com especial incidência no contexto lusófono) e da América Latina que abordem temas de género, tendo por base perspetivas interdisciplinares. Os feminismos indígenas, negros e mestiços (p. ex. Gloria Anzaldúa, Julieta Paredes, Lélia Gonzalez, Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, Nkiru Nzegwu) constituem abordagens privilegiadas de análise, a par das epistemologias do sul (na senda de Boaventura de Sousa Santos) e da perspetiva descolonial (na senda de Aníbal Quijano e María Lugones). Os contextos onde essas produções artísticas surgem serão também alvo de análise, partindo dos mecanismos que poderão estar na base quer dos variados níveis de produção literária e artística, quer da sua ausência, no que à questão de género diz respeito.

É propósito deste projeto colocar em diálogo a produção artística com a produção teórica em torno das questões de sexo/género, contribuindo portanto para a relativização das lógicas ocidentais universalizantes, bem como para a descolonização da categoria mulher e da diversidade sexual e/ou de género dissidentes, dentro dos estudos literários e culturais, e para além deles. Para tal, são fundamentais as colaborações a estabelecer a nível nacional e internacional com académicas do Sul Global e/ou que se debrucem sobre esse espaço.

Equipa

Doris Wieser (CEC, ULisboa)
Ana Balona (UNL, Lisboa)
Ana Romão (CEC, ULisboa)
Elena Cordero (CEC, ULisboa)
Jessica Falconi (CEsA, ISEG, ULisboa)
Laura Casado (CEC, ULisboa)
Luciana Moreira (CES, UCoimbra)
Magdalena López (CEC, ULisboa)
Raquel Lima (CES, UCoimbra)
Rosa Churcher Clarke (CEC, ULisboa)
Simone Cavalcante (CEC, ULisboa)