Jaguaretama: morada e nome

Texto, fronteira e identidade em “Meu Tio e o Iauaretê” Guimarães Rosa
Clara Rowland


“Meu Tio o Iauaretê”, na obra de João Guimarães Rosa, ocupa um lugar instável. Publicado pela primeira vez em 1961 na revista Senhor, continuou a ser revisto e alterado por Rosa até à sua morte súbita em 1967, sendo mais tarde editado por Paulo Rónai para a publicação póstuma de Estas Estórias, com marcas de reescritas e de indecisão, sobretudo a nível lexical. Da inclusão no plano original do último livro de Rosa dão conta os projectos de índices e as sugestões para o ilustrador. No entanto, uma nota do autor remete-o para uma fase anterior à publicação dos dois livros de 1956, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. Durante mais de doze anos, portanto, Rosa regressou a este texto, sem chegar a dar-lhe uma publicação definitiva. Nesta forma incompleta, o conto surpreende, porém, como uma das suas criações mais acabadas. Colocando, de forma extrema e violenta, o problema da morte, este é assim, de dois modos, um texto póstumo. Póstumo porque, enquanto conto, só a morte que o encerra o pode cumprir, precisamente na medida em que torna inviável qualquer conclusão, instituindo um jogo perigoso com os limites da fala, com as fronteiras do humano, com a natureza da narrativa.

A falar é um “tigreiro”, ou caçador de onças, um homem, meio-índio, desterrado para uma cabana no meio do mato – nos gerais de Minas – com a função exclusiva e infinita (tarefa de Sísifo) de matar onças, de “desonçar este mundo todo” (p. 195), numa paisagem que vai ser descrita como jaguaretama – terra de onças, o país das onças. Fala a um homem que lhe pede abrigo por uma noite depois de se ter perdido na floresta. Fala-lhe da sua experiência, da vida das onças, das razões que o levaram a tornar-se primeiro caçador de onças e, mais tarde, seu cúmplice: assassino, que alimenta as onças (com carne humana) e é por elas alimentado, ele próprio tornado onça, amante de onça, caçado, no final, como uma onça. Ao longo desta confissão, o discurso transforma-se, vai-se desintegrando, a fala humana desliza para o animal, para acabar num rosnado que se funde com o tupi: perante a ameaça da metamorfose, o interlocutor dispara contra o monstro, instituindo a interrupção da fala que faz precipitar o texto, através das reticências finais, no vazio da página.

Clara Rowland

Assistente Convidada e Doutoranda em Estudos Comparatistas


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Instituição:

  • Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Principais áreas de Investigação:

  • Literatura Comparada
  • Literatura Brasileira

Principais publicações:

  • “Com um retardamento custoso: temporalidade e conhecimento em Grande Sertão: Veredas”, As Máscaras de Perséfone, 2º vol., ed. Lélia Parreira Duarte (título provisório do volume, no prelo). 
  • “Self-representation and temporality: Parabasis in Guimarães Rosa’s Grande Sertão: Veredas”, in Stories and Portraits of the Self, eds. Helena Buescu e João Ferreira Duarte, Rodopi (no prelo).
  • “Loup, si on jouait au loup? – Diálogo, palavra e morte em Meu Tio o Iauaretê de João Guimarães Rosa”, in As Máscaras de Perséfone: figurações da morte nas literaturas de língua portuguesa, ed. Lélia Parreira Duarte, Belo Horizonte: PucMinas/Bruxedo, 2006, pp. 41-83.
  • “A construção do livro em João Guimarães Rosa – indicações de leitura”, Românica, 13, 2004, pp. 153-175.
  • “No Way Out – Para uma leitura do Teatro de Fausto Paravidino”, Revista Artistas Unidos, nº 12, Novembro de 2004.
  • “Jaguaretama – morada e nome. Texto, Fronteira e Identidade em Meu Tio o Iauaretê de João Guimarães Rosa”, ACT 11, Lisboa, Colibri/Centro de Estudos Comparatistas, 2005, pp. 279-285.
  • “Indicações de (re)leitura: o desdobramento dos índices em Corpo de Baile e Tutaméia”, Revista Scripta, v. 9, n. 17, 2º semestre 2005, Edição especial do III Seminário Internacional Guimarães Rosa, pp. 85-93.